Segunda-feira, 05 de Abril de 2010

O senhor Valéry não era bonito. Mas também não era feio.

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Há muito tempo atrás havia decidido trocar os espelhos por quadros de paisagens. Desconhecia, pois, o seu aspecto exterior actual.

O senhor Valéry dizia:

 

 

— É preferível assim.

 

E explicava:

 

— Se me visse bonito ficaria com medo de perder a beleza; e se me visse feio ficaria com ódio às coisas belas. Assim, não tenho medo nem ódio.

 

 

E sem ser bonito nem feio, o senhor Valéry passeava pelas ruas da cidade, olhando, com atenção, para as pessoas com quem se cruzava.

 

Ele explicava:

 

— Se me sorriem percebo que estou bonito, se desviam os olhos percebo que estou feio.

 

Teorizando dizia ainda:

 

— A minha beleza é actualizada a cada instante pela cara dos outros.

 

Por vezes, depois de se cruzar com alguém que desviava os olhos, o senhor Valéry, percebendo, passava a mão pelo seu cabelo, penteando-se ao mesmo tempo que procurava um outro rosto dentro de si próprio, agora mais agradável.

 

O senhor Valéry comentava, em jeito de conclusão:

 

— O espelho é para os egoístas.

 

— E o desenho? — perguntaram-lhe.

 

— Hoje não há desenho — respondeu o senhor Valéry, e despediu-se logo de todos com um movimento brusco, mas gentil.

 

As pessoas gostavam do senhor Valéry.

 

          

                                                  Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Valéry



publicado por aquiharatos às 23:31
Gosto de livros. Da textura, da cor, das linhas, dos parágrafos. De folhear, ler, parar, saborear. Gosto de livros. Gosto. Moro na Biblioteca da Escola Secundária Fernão Mendes Pinto, em Almada, e ando à procura de outros ratos devoradores. Visita-me!
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