Segunda-feira, 10 de Maio de 2010

Chegada ao Palácio dos Duques de Bragança

A manhã cinzenta prometia um dia de chuva e algum frio, mas nada que esmorecesse a boa disposição do grupo que pouco a pouco se reunia defronte do portão da escola. Animado pelas visitas a Vila Viçosa e a Évora, esforçava-se por sacudir o sono com recordações de anteriores visitas e com a antecipação dos saborosos manjares alentejanos, com particular destaque para as queijadas de Évora, que encontraram na professora Joaquina uma defensora intrépida e apaixonada. Combinando a sua experiência didáctico-pedagógica, o profundo conhecimento de literatura e a reconhecida mestria culinária, a professora Joaquina expôs com a clareza apaixonada dos sabedores as razões que justificam a primazia das queijadas de Évora, levando o público ignorante a perceber que o destaque dado às de Sintra se deve apenas a modismos queirosianos. Depois de tal aula magistral, não será de estranhar que futuramente se assista a uma diminuição na tiragem dos fornos da Piriquita.

 

 

Como sempre acontece, a parte de trás do autocarro foi a mais animada. Obrigados a abafar o ruído do motor encontraram no bom humor a melhor solução, e como em equipa vencedora não se mexe mantiveram-se unidos no seu propósito de arredar a chuva e o frio com a sua boa disposição.

A paragem para o café fez-se na estação de Montemor-o-Novo. Os dez minutos previstos cresceram para o dobro graças a calma alentejana das funcionárias, para exaspero da organização. Ainda assim chegámos a Vila Viçosa a tempo da visita guiada.

 

O Palácio de Vila Viçosa foi mandado construir pelos Duques de Bragança e como obra portuguesa que se preze levou cerca de 300 anos a ficar concluída. Aí viveu a família até 1640, ano em que D. João, futuro D. João IV, foi chamado para assumir a coroa portuguesa, restaurando a independência de Portugal após oitenta anos de domínio filipino. Vila Viçosa fica então associada a dois feriados nacionais: o 1º de Dezembro e o 8 de Dezembro, pois D. João IV nomeia Nossa Senhora padroeira do reino de Portugal em sinal de agradecimento pela nova casa em Lisboa e pelos terrenos com vista sobre o Atlântico e o Índico.

 

A visita percorreu todos os espaços do palácio, com excepção dos jardins e dos aposentos da criadagem, no andar superior. Pudemos apreciar as tapeçarias, os candelabros, os louceiros, a credência, os serviços de loiça, a seda adamascada que cobria as paredes e as paredes que pareciam que tinham seda e afinal eram pintadas, as armaduras que duvidamos que os nossos Braganças tenham vestido, de tão pequenas que eram e, a julgar pelos retratos nas paredes e nos tectos, duques e reis apreciavam o bom pão alentejano. De entre as peças, destacava-se o serviço de chá da duquesa D. Catarina, a mesma que introduziu o chá das cinco na corte de Carlos II de Inglaterra, seu marido. O serviço de chá reproduz o Santo Sepulcro e o chá nele contido tinha o propósito de acalmar uma preocupação bem terrena: teria o rei uma amante? Distraídas pelo perfume do chá e pelo doce dos bolinhos, perceberiam as damas da corte que a rainha as contava? Aquela que faltasse era a amante do rei.

 

Bom garfo, bom copo, dedo ligeiro no gatilho e no pincel, D. Carlos, primeiro e único, passou longas temporadas em Vila Viçosa. A tapada do palácio pejada de veados, coelhos e aves justificava a ausência da capital do Império. O talento artístico do rei está bem visível nos numerosos quadros que decoram as paredes do palácio, levando-nos a pensar que nascer rei nem sempre é um privilégio. E nascer alta também não. Numa época em que ser alta só trazia vantagens para ir aos figos, D. Amélia, a rainha consorte, bem deve ter desejado ser mais portuguesa, que é como quem diz «piquena como a sardinha». Com 1,86 m era obrigada pelo protocolo a estar sentada nas fotografias e a andar encurvada para disfarçar os 8 cm que faltavam ao rei. Este, porém, deve ter amado cada centímetro seu, dando o nome da esposa altaneira a quatro enormes iates, onde certamente teriam mais espaço para esticar as pernas – e o resto do corpo – pois naquelas caminhas que vimos deviam sobrar as pernas da rainha e a barriga redonda do rei.

 

A visita terminou na cozinha. Paredes, portas, chão e armários refulgiam com o brilho alaranjado das panelas, panelões, formas de pudim e de bolinhos. São mais de trezentas peças, areadas como manda a tradição: areia fina, limão e esfregão de palha d’aço, num esforço que dura dois meses. Com a imaginação alimentada pela fome e pelos elegantes menus pintados por D. Carlos e D. Amélia, quase conseguimos cheirar a sopa de cevadilha a apurar no fogão a lenha. Outros, com o corpo encolhido pelo frio, contemplavam os dois panelões usados para aquecer a água dos banhos de Suas Majestades.

 

Pouco mais tardava para que frio e fome fossem esquecidos. Migas, sopa de cação, vinho e sangria dariam outra cor às faces, fornecendo energia para o passeio da tarde em Évora, no rasto de Aparição, de Vergílio Ferreira.

 

Carla Piedade,

Professora de História



publicado por aquiharatos às 18:49
Gosto de livros. Da textura, da cor, das linhas, dos parágrafos. De folhear, ler, parar, saborear. Gosto de livros. Gosto. Moro na Biblioteca da Escola Secundária Fernão Mendes Pinto, em Almada, e ando à procura de outros ratos devoradores. Visita-me!
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