Sexta-feira, 25 de Junho de 2010

 

Casa das Histórias Paula Rego. Gonçalo M. Tavares, escritor. Tónan Quito, actor. Escrita e Imaginação, Acção e Leitura!

 

 

 

Este foi o rol de elementos que nos fizeram aderir a dois fins-de-semana de escrita narrativa, a partir de obras (ou de pormenores de obras) da internacionalmente conhecida Paula Rego.

 

Os quadros da pintora davam o mote. O escritor Gonçalo M. Tavares (vencedor do Prémio Literário José Saramago 2005, entre outros) introduzia e despertava, com perícia, diversas técnicas de construção e desconstrução textual.

 

 

E assim surgiram alguns textos, em diferentes estilos. O essencial, porque estávamos na Casa das Histórias, era escrever uma história, uma narrativa. E depois contá-la. Com as técnicas trazidas pelo actor convidado, na arte de dizer e de contar.

 

 

 

 

Eis alguns exemplos de textos e os pormenores dos trípticos que os inspiraram, numa escrita livre e não descritiva.

 

 

 

 

 

 

 

As avestruzes bailarinas   

Paula Rego, As avestruzes bailarinas, pormenor do tríptico

 

 

 

Elisabete vestiu o seu fato antigo. Mal lhe servia. Embora já não dançasse, gostava de assistir aos ensaios das outras.

 

Observava-as.

 

Ela também já tivera um pescoço assim… infinito.

 

Olhou para o espelho e ensaiou um gesto com os braços! Pareciam trambolhos!

 

Às vezes ainda tinha vontade de desafiar a gravidade e a idade, mas estava pesada, sentia-se como as avestruzes. Não que gostasse de enfiar a cabeça na areia, mas tal como elas, tinha desaprendido de voar.

 

 

 

                                                                                                                          Cecília Lourenço, Professora da Equipa da Biblioteca Escolar

 

 

 

  Human Cargo (escrita a partir de um pormenor do tríptico)

  

 

Human Cargo, pormenor de tríptico de Paula Rego

 

 

 

    

Mariana está presa no quarto. A mãe, que estava na cozinha a preparar o jantar, ouve a sua voz sussurrante e oferece-se para a ajudar a sair. Traz-lhe um naco de pão e um copo de água numa bandeja.

 

Pelo postigo lateral do quarto, recomenda:

 

- Come, querida, que o teu mal são nervos. Estás preocupada com os exames que estão à porta.

 

A menina trinca o pão. Mas parte o aparelho. Bebe um trago, mas o veneno é letal. Sucumbe do lado de lá da porta.

 

 

Entretanto, a chave desaparecera. A mãe fica aprisionada na sua maldade, sem conseguir escondê-la. E agora?

  

 

 

 

                                                                                                                                     Mª Carla Crespo (PB)

 

 

 

 

  

Human Cargo     (escrita a partir de um pormenor do tríptico. Estilo “Eu cá” – popular)

 

  

 

Mariana está bué da presa no quarto, meu. A cota, que preparava minuciosamente a janta, com couves, repolho, feijão, orelha, toucinho e o caraças, ouve a chavala a grunhir lá do canto da casa milimetricamente oposto ao do fogão e oferece-se para acudir à moçoila e ajudá-la a sair. Vai a correr, esbaforida e afogueada, bota-lhe um naco de pão pela goela abaixo e arremessa-lhe um copo de água pelo garguejo. Cheia de raiva, diz à cachopa:

 

 

- Deita isso pela goela abaixo, que o teu mal são nervos. Tás acagaçada c’os exames, minha!

 

A miúda afifa os morfes no pão c’o diabo amassou. Só que parte o aparelho, c’um caraças! Depois, bebe um trago, mas morre estatelada no chão. A água, afinal, era um veneno letal e a chavala estica o pernil do lado de lá da porta.

 

 

O raio da chave sumira-se. A mãe fica bué da podre! Não consegue esconder a maldade que fizera. E agora? Vira-se o feitiço contra o feiticeiro…

 

                                                                                                                                                                                                                                                   Mª Carla Crespo (PB)

 

 

 

 

 

 

 

As Avestruzes Bailarinas

 

 

Perderam no ovo
a memória do voar.

As avestruzes.

Têm desejos aerodinâmicos.

Dormem numa febre de sentir
encostando ao peito
o mecânico ruído de turbinas
hélices
motores.

Têm sonhos que nunca confessarão
nem sequer à própria sombra.

Aspiram soluçando à forma das fuselagens.

Perderam no ovo a inclinação
à travessia das nuvens.

Vão dançar a noite inteira
procurando tristemente a memória
de uma estrela de um cometa
ou de uma asa.

                              José Fanha

 

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publicado por aquiharatos às 00:46
Gosto de livros. Da textura, da cor, das linhas, dos parágrafos. De folhear, ler, parar, saborear. Gosto de livros. Gosto. Moro na Biblioteca da Escola Secundária Fernão Mendes Pinto, em Almada, e ando à procura de outros ratos devoradores. Visita-me!
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