Quarta-feira, 07 de Abril de 2010

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Faça uma viagem até ao ano de 2044 e conheça uma novela com episódios rocambolescos de paixão e de cariz policial. Imagine-se a viver num prédio com perto de cem andares, com heliporto, e numa sociedade em que as actuais redes sociais do Twitter ou do Facebook já estão obsoletas, já passaram à história.

Numa escrita escorreita, apesar dos neologismos e novos grafismos como “helijequingue” ou “setrece”, Mário Zambujal recria um universo no futuro, com um pano de fundo amoroso, ainda que com um pé na sociedade sua contemporânea, o que não deixa de conferir alguma verosimilhança à narrativa.

Descubra por que razão “uma noite não são dias” e sorria com o final da novela. Não vai conseguir parar de ler.



publicado por aquiharatos às 10:20
Terça-feira, 06 de Abril de 2010

A janela

 

Uma das janelas de Calvino, a com melhor vista para a rua, era tapada por duas cortinas que, no meio, quando se juntavam, podiam ser abotoadas. Uma das cortinas, a do lado direito, tinha botões e a outra, as respectivas casas.

Calvino, para espreitar por essa janela, tinha primeiro de desabotoar os sete botões, um a um. Depois sim, afastava com as mãos as cortinas e podia olhar, observar o mundo. No fim, depois de ver, puxava as cortinas para a frente da janela, e fechava cada um dos botões. Era uma janela de abotoar.

 

(...)

Daquela janela o mundo não era igual.

 

Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Calvino

 

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A colher

 

Para treinar os músculos da paciência, o senhor Calvino colocava uma colher de café, pequenina, ao lado de uma pá gigante, pá utilizada habitualmente em obras de engenharia. A seguir, impunha a si próprio um objectivo inegociável: um monte de terra (50 quilos de mundo) para ser transportado do ponto A para o ponto B – pontos colocados a 15 metros de distância um do outro.

 

(…) E Calvino utilizava a minúscula colher de café para executar a tarefa de transportar o monte de terra de um ponto para outro (…)

 

(…) Calvino sentia estar a aprender várias coisas grandes com uma pequenina colher.

 

Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Calvino



publicado por aquiharatos às 11:53
Segunda-feira, 05 de Abril de 2010

O senhor Valéry não era bonito. Mas também não era feio.

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Há muito tempo atrás havia decidido trocar os espelhos por quadros de paisagens. Desconhecia, pois, o seu aspecto exterior actual.

O senhor Valéry dizia:

 

 

— É preferível assim.

 

E explicava:

 

— Se me visse bonito ficaria com medo de perder a beleza; e se me visse feio ficaria com ódio às coisas belas. Assim, não tenho medo nem ódio.

 

 

E sem ser bonito nem feio, o senhor Valéry passeava pelas ruas da cidade, olhando, com atenção, para as pessoas com quem se cruzava.

 

Ele explicava:

 

— Se me sorriem percebo que estou bonito, se desviam os olhos percebo que estou feio.

 

Teorizando dizia ainda:

 

— A minha beleza é actualizada a cada instante pela cara dos outros.

 

Por vezes, depois de se cruzar com alguém que desviava os olhos, o senhor Valéry, percebendo, passava a mão pelo seu cabelo, penteando-se ao mesmo tempo que procurava um outro rosto dentro de si próprio, agora mais agradável.

 

O senhor Valéry comentava, em jeito de conclusão:

 

— O espelho é para os egoístas.

 

— E o desenho? — perguntaram-lhe.

 

— Hoje não há desenho — respondeu o senhor Valéry, e despediu-se logo de todos com um movimento brusco, mas gentil.

 

As pessoas gostavam do senhor Valéry.

 

          

                                                  Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Valéry



publicado por aquiharatos às 23:31
Segunda-feira, 05 de Abril de 2010

 

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento

 

O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e

só entram nos meus versos as coisas de que gosto

 

O vento das árvores o vento dos cabelos

o vento do inverno o vento do verão

O vento é o melhor veículo que conheço

Só ele traz o perfume das flores só ele traz

a música que jaz à beira-mar em agosto

Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento

O vento actualmente vale oitenta escudos

Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

 

Ruy Belo, in Todos os Poemas, Assírio & Alvim 

 

                                                                                



publicado por aquiharatos às 15:38
Segunda-feira, 05 de Abril de 2010

     O camponês afeiçoou-se a uma cerejeira desde que sua mulher faleceu. Todas as manhãs a visitava, afagando seu tronco. No mês em que o camponês esteve de cama, com bronquite, também a cerejeira adoeceu. Depois levantou-se e voltou a acariciá-la e a falar-lhe e, rapidamente, a cerejeira de mil folhas enfeitou seus ramos.

 

 

Um dia, no mercado, ao comprar uma foice, o camponês sentiu um irresistível desejo de regressar aos seus campos. Parecia-lhe que a cerejeira precisava de si. Encontrou-a toda florida, sorrindo para ele.

 

 

Sentou-se, então, sob a árvore, com as costas apoiadas no tronco e, de improviso, sobre o corpo do camponês, choveram todas as pétalas da cerejeira em flor.
 

  

Tonino Guerra, Histórias para uma Noite de Calmaria, Assírio & Alvim, p.21



publicado por aquiharatos às 15:11
Sábado, 03 de Abril de 2010
Páscoa é o anúncio da flor, da Primavera, da existência, da poesia...
 

 

Use o poema para elaborar uma estratégia

de sobrevivência no mapa da sua vida. Recorra

aos dispositivos da imagem, sabendo que

ela lhe dará um acesso rápido aos recursos

da sua alma. Evite os atolamentos

da tristeza, e acenda a luz que lhe irá trazer

uma futura manhã quando o seu tempo

se estiver a esgotar. Se precisar de

substituir os sentimentos cansados

da existência, reinstale o desejo

no painel do corpo, e imprima os sentidos

em cada nova palavra. Não precisa

de dominar todos os requisitos do sistema:

limite-se a avançar pelo visor da memória,

procurando a ajuda que lhe permita sair

do bloqueio. Escolha uma superfície

plana: e deslize o seu olhar pelo

estuário da estrofe, para que ele empurre

a corrente das emoções até à foz. Verifique

então se todas as opções estão disponíveis: e

descubra a data e a hora em que o sonho

se converte em realidade, para que poema

e vida coincidam.


Nuno Júdice, “Guia de Conceitos Básicos”,

In revista Neo, n.º 9, 2009

 



publicado por aquiharatos às 14:54
Gosto de livros. Da textura, da cor, das linhas, dos parágrafos. De folhear, ler, parar, saborear. Gosto de livros. Gosto. Moro na Biblioteca da Escola Secundária Fernão Mendes Pinto, em Almada, e ando à procura de outros ratos devoradores. Visita-me!
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